Saturday, April 19, 2003
PARA SE ESCREVER POEMAS COMO ESSES, É NECESSÁRIO SE TRANSBORDAR...
E de Agora em Diante (Oswaldo Montenegro)
E de agora em diante teria sido decretado o amor sem problemas
E seriam vítimas os olhos, e as almas vagariam sem medo
E de agora em diante seria pra sempre o que pra sempre acabara
E seria tão puro o desejo dos homens, que Dionisio enlaçaria a virgem com braços enternecidos
E aplaudiríamos, calmos e frenéticos como um são Francisco febril
E de agora em diante pra trás não haveria
Não mais a virtude dos fortes, mas o mérito dos suaves
O homem feminino e a mulher guerreira
O amor comunitário, sem ciúmes.
Dariam as mãos as moças que amo e brincariam de roda em volta de minha preferida
E um artesão criança esculpiria flores nos cabelos e um sorriso sincero no rosto
E de agora em diante Ghandi tava vivo pra sempre / e Jesus era hippie, Beethoven era roqueiro e Lenon era como nós
E se não desse certo, de agora em diante, ao menos teríamos tentando
Metade (Oswaldo Montenegro)
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
posted by Marco at 11:04 AM
Friday, April 18, 2003
QUE TODOS AS ARTIGOS ABAIXO SEJAM SEGUIDOS AO PÉ-DA-LETRA
Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony)
Thiago de Mello
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
posted by Marco at 10:46 PM
Estes textos são colhidos na página http://www.releituras.com.
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
posted by Marco at 9:17 PM
Isso é para quem nunca leu Brecht. É obrigatório.
Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Morreu em Berlim, em 1956. O poema acima foi extraído do caderno "Mais!", jornal Folha de São Paulo - São Paulo (SP), edição de 07-07-2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.(12-07-02)
posted by Marco at 8:36 PM
Máximas do Barão de Itararé
Barão de Itararé (Apparício Torelly)
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
Quem empresta, adeus...
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.
Quem só fala dos grandes, pequeno fica.
Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.
Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra).
Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.
Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
Os juros são o perfume do capital.
Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.
Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.
Cobra é um animal careca com ondulação permanente.
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.
É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.
A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.
Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.
O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.
Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
Mulher moderna calça as botas e bota as calças.
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Pão, quanto mais quente, mais fresco.
A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
posted by Marco at 11:34 AM
Enquanto não recebo colaborações para editar aqui, continuo garimpando pérolas pela Net. E encontro coisas como esses dois poeminhas de Ascenso Ferreira, poeta Pernanbucano engajado no Modernismo.
Tradição e Outras Histórias
Ascenso Ferreira
Terraço da Casa-Grande de manhãzinha, fartura espetaculosa dos coronéis:
— Ó Zé-estribeiro! Ó Zé-estribeiro!
— Inhôôr!
— Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
— 25, seu Curuné!
— E a vaca malhada?
— 27, seu Curuné!
— E a vaca Pedrês?
— 35, seu Curuné!
— Sóó? Diabo! Os meninos hoje não têm o qui mamar!
SUCESSÃO DE SÃO PEDRO
— Seu vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pro mártir São Sebastião!
— Está falando com ele!
— Está falando com ele!
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Eis aqui uma Crônica quase Fábula.
Augusto Monterroso nasceu em 1921, na Guatemala. Foi agraciado, em 2000, com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios. "O dinossauro", uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: "Quando acordou, o dinossauro estava lá". Faleceu em fevereiro/2003.
O Macaco Que Quis Ser Escritor Satírico
Augusto Monterroso
Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.
Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.
posted by Marco at 11:30 AM
Vamos ver se vocês concordam comigo quando eu digo que esse cara é um grande cronista... É o mesmo que escreveu o texto anterior (Com Certeza).
Pornografia II
Artur de Carvalho
Minha mulher e eu, na sala. Assistindo TV. Aguardávamos a chegada da filha, que tinha ido para uma festa. Eu estava comendo uma daquelas bananinhas. Daquelas, que vem embrulhadas numa espécie de celofane, sabe? Antigamente chamavam de "mariola". Ando tendo umas cãibras à noite. Na batata da perna. Estou lá, no maior sono do mundo, sonhando com a Meg Ryan e, de repente, é como se o mundo virasse de ponta cabeça. Não é possível que exista dor maior no mundo. Parece que alguma coisa está querendo sair de dentro da perna, a gente acorda assustado, não sabe direito o que está acontecendo. Estávamos nos braços da Meg Ryan e de repente estamos ali, no quarto, nos contorcendo de dor. Aliás, a personagem vivida pela Meg Ryan no filme "A Cidade dos Anjos" disse que o homem suporta a dor oito vezes menos que a mulher. Deve ser por causa do parto, essas coisas. Mas não é possível que o parto doa mais que uma boa cãibra. Não é possível.
Bem, eu sei que me falaram para comer bananas. Que as cãibras cessariam. Tem ferro, fosfato, sei lá o que. O problema é que eu nunca fui muito chegado em bananas. Não é exatamente o gosto da banana. É a banana como um todo.
Tudo bem enquanto elas estão lá, no cacho. Bonitas, vistosas. Amarelas, quase douradas. Vem até água na boca. Aí a gente escolhe uma. A que nos chama mais atenção. Quase sempre a maior, em diâmetro e comprimento. A separamos do restante do cacho e os problemas começam. Se o pecado está dentro de nossas cabeças, como li não sei onde, então estou condenado aos infernos. Por que não consigo olhar para uma banana e não fazer uma certa comparação. Não consigo. Seguro a banana e fico observando de longe. As vezes até olho em volta, para ver se não tem ninguém espiando. E a banana ali, olhando para mim. Está certo. Bananas não olham. Mas ela fica ali, com aquele seu jeito meio... ela fica ali, encurvada. Me olhando. E eu olhando para ela.
Respiro fundo e tomo coragem. Aproximo a banana de minha boca. Entende que não é uma aproximação normal? Ela ali, cada vez mais próxima, chegando. Com aquele jeitão. Aí temos que descascar a banana. Quando eu era adolescente, descascar era gíria para uma coisa, não sei se ainda é. E eu ali, quase quarenta anos, uma filha que freqüenta festas noturnas, e prestes a descascar uma banana. E para descascar, normalmente, a gente vira a banana em nossa direção. Ela é encurvada. Então ela fica ali, descrevendo uma pequena curva. Em direção à nossa boca. Se oferecendo. Normalmente, nessa hora, eu olho em volta novamente. Para me certificar que não tem ninguém observando. Se há alguém, desisto. Bananas não devem ser comidas em público. Se estou sozinho, arrisco.
Seguro na ponta da banana. Na ponta. Uma pequena pressão com o dedo e separo um pedaço da casca. Puxo para baixo, deixando a polpa à mostra. Mais um pedaço da casca e, de repente, ela está ali, desnuda. Subitamente a banana assume uma dupla coloração. A cor da casca quase até a ponta e outra, a da polpa. A casca formando uma espécie de flor em torno daquela ponta. Uma segunda pele.
A sensação de estar sendo observado é inevitável. Quase escondo a banana atrás de mim, mas isso soaria ainda pior. Ela fica ali, na minha mão. E eu já não sei se a seguro assim, com a ponta dos dedos, ou agarro com toda a mão, como se segura em torno de uma garrafa de coca-cola.
E a trago até a boca. As vezes mordo com os olhos abertos, mas a maioria das vezes fecho os olhos. Porque a cena é terrivelmente constrangedora. O entreabrir de minha boca, a aproximação da banana, o fechar dos dentes em torno da ponta descascada. De repente me vem à cabeça que alguém entrou no recinto. E eu ali de olhos fechados. Com a banana na boca. Nunca iriam entender que é porque eu não queria ver a coisa toda. Abro os olhos e afasto rapidamente a banana. Mas não há ninguém. Olho novamente para a banana. Ela está sem a ponta. Sem a ponta. Eu estou mastigando a ponta dela. Aquela massa adocicada na minha boca vai ficando cada vez mais grossa. Por que a banana não é como a maçã ou a pêra, que são quase crocantes. A banana é macia, mole, carnuda. Carnuda?
Bem, mas isso faz parte do passado. Descobri as bananinhas. Muito melhores, industrializadas. Você desembrulha e joga na boca. Mastiga e pronto. Adeus cãibras noturnas. Eu estava ali, comendo minha bananinha e pensando nessas coisas. Minha filha chegou da tal festa. Da porta, fez tchauzinho para alguém que estava na calçada. Entrou e me viu.
— Boa noite, pai. O que é que você já tá mastigando?
— Bananinhas. Quer uma?
— Obrigado, pai. Mas eu prefiro a fruta mesmo.
Ela caminhou até a cozinha. Ia comer uma banana.
E eu não podia fazer absolutamente nada.
posted by Marco at 10:56 AM
Esse cara aqui é o autor de "Marcelo, Marmelo, Martelo". Um cronista de mão cheia...
Com Certeza
Artur de Carvalho
Você já ouviu falar do Princípio da Incerteza?
Bem, vou tentar explicar aqui, em poucas linhas, uma coisa que cientistas ganhadores do prêmio Nobel de Física passaram a vida inteira para descobrir. A tarefa não é fácil, eu sei, nem digna deste pobre cronista, mas não custa nada tentar.
É o seguinte. O Princípio da Incerteza foi a conclusão a que chegaram alguns estudiosos da física quântica quando eles estavam lá, analisando o comportamento dos elétrons (lembra? elétrons, átomos, núcleos). Eles descobriram que não conseguiriam nunca saber onde é que uma determinada partícula estava num dado momento específico porque, para sabê-lo, era necessário tocar a partícula, tirando-a assim do seu lugar de origem.
Explicando melhor. Tente, por exemplo, medir a distância entre o focinho e a ponta do rabo de um gato. Bem, se você não matar o gato, provavelmente — além de não conseguir medir porcaria nenhuma — vai também precisar de muitos curativos. Porque o gato não vai ficar ali, quietinho, esperando você medir.
E é mais ou menos o que acontece com as partículas que formam nossos corpos. Ninguém sabe exatamente onde elas estão porque ninguém consegue chegar nem perto delas e elas escapam.
E, se ninguém consegue saber com precisão onde estão nossos elétrons, então também é impossível saber "exatamente" onde nós estamos. Entendeu?
Desde que essas observações vieram à luz, daquelas três perguntas que há milênios atormentam a vida dos filósofos — de onde viemos? onde estamos? para onde vamos? — a que parecia ter a resposta mais fácil tornou-se um verdadeiro pesadelo: nós sequer sabemos onde estamos!!!
Essa confusão toda foi chamada de Princípio da Incerteza posto que, se não sabemos sequer onde estamos, como poderemos então ter certeza de mais alguma coisa?
Bem, é claro que eu simplifiquei bastante a tal teoria. Se me aparecer algum físico quântico por aí, com algumas correções, eu até agradeço, mas acho que não adiantaria muito a gente entrar em detalhes aqui, já que até mesmo sendo bastante supérfluo como fui, a coisa já me parece bastante confusa.
Ainda mais que não era exatamente sobre isso que eu queria falar. Eu queria era falar sobre essa mania que as pessoas têm de iniciar todas suas repostas com um "com certeza". Especialmente as pessoas mais ou menos famosas. Pode reparar. O repórter chega para o fulano e pergunta:
— E o disco? Está vendendo muito?
— Com certeza. Em todo lugar que a gente vai é recebido com carinho e...— e por aí vai.
O repórter chega para outro:
— As acusações eram verdadeiras?
— Com certeza. Embora as investigações ainda estejam em fase inicial, pressuponho que...
Mas não é só com gente famosa não. Pergunte aí, para seu vizinho.
— E aí? Muita farra no fim de semana?
— Com certeza... Fomos pro rancho e... — não sei que mais.
Mas não é possível que esse pessoal tenha tanta certeza assim, de tantas coisas, ao mesmo tempo. Eu não tenho certeza nem de onde vou dormir amanhã, e você chega pra esses caras e pergunta como é que eles pretendem passar as férias e eles vêm com um " — Com certeza numa praia, ou numa montanha..."
Oras, se vai ser numa praia OU numa montanha, então por que é que começa falando "com certeza"? Se nem os mais famosos cientistas — que passam vinte quatro horas por dia em cima de microscópios eletrônicos estudando as partículas atômicas — têm absoluta certeza de nada nesse mundo, esse povinho aí vai querer ter certeza do quê, deus do céu?
Sei lá. As certezas, assim como as unanimidades, geralmente são muito burras.
posted by Marco at 10:44 AM
Isso não é humor negro (aliás, humor negro é racismo). Isso é ser observador. E esses dois caras ganham dinheiro falando de epitáfios. Pode ?
Deleitem-se.
EPITÁFIOS DE GENTE FAMOSA:
Aran & Castelo
· Ai, tô morta! (Agnaldo Timóteo)
· Nelson Ned é a puta que o pariu! (Anão Zangado)
· Causa mortis: pneumonia. (Anão Atchim)
· Estou dando para os vermes o que sempre recusei aos homens... (Angélica)
· Do pró ao pó (Arnaldo Jabor)
· Caí do cavalo (Beto Carreiro)
· Isso é uma vergonha! (Bóris Casoy)
· É preciso passar o inferno a limpo. (Idem)
· Cuidado: inflamável (Boris Ieltsin)
· Alguma coisa aconteceu em meu coração (Caetano Veloso)
· Moli (Cebolinha)
· A César o que é de César: um buraco (César Maia)
· Hay que apodrecerse (Che Guevara)
· Pai, viu o que deu não afastar de mim o cálice? (Chico Buarque)
· Ohana nas alturas (Cláudia Ohana)
· Às margens do rio Piedra eu sentei e a-do-rei! (Clodovil)
· No túmulo com Danuza (Danuza Leão)
· Logo hoje que eu estava toda encaralhada, puta que me pariu! (Dercy Gonçalves)
· Finalmente, não preciso fazer mais nada (Dorival Caymmi)
· Atenção, velas, flores e fotos autografadas estão à venda no estande da Igreja Universal, à direita de quem entra no cemitério (Edir Macedo)
· A Sociedade Protetora dos Animais conserva esta área (Edmundo)
· Meu nome era Enéas! (Enéas)
· Não morri, estou fazendo pós-graduação da vida (Fernando Henrique Cardoso)
· Desta vez, doeu demaaaisss! (Gal Costa)
· A complexitude do sincretizamento da afrocrença nagô com a mitologização da catolicitude, não deixa duvidanças: desencarneci. (Gilberto Gil)
· Sempre adorei criança. Malpassada (Herodes)
· Enterrem meu topete na beira do rio (Itamar Franco)
· Foi o único jeito dele pular cerca... (José Rainha)
· Foi culpa da Rede Globo (Leonel Brizola)
· Aqui jaz um malvadinho (Luiz Eduardo Magalhães)
posted by Marco at 10:30 AM
Thursday, April 17, 2003
Eis aqui mais um achado...
Antes que elas cresçam - Affonso Romano de Sant'Anna
Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maneira que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça...
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes e cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com uniforme de sua geração.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não se repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueses e refrigerantes, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito para que eles acertem nas escolhas em busca da felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
Texto extraído do CD "Crônicas Escolhidas", lidas por Paulo Autran, produzido por Luz da Cidade - Niterói, 1999.
posted by Marco at 8:57 PM
Saturday, April 05, 2003
Sabadão
E sem grana... Acordei tarde, liguei a TV para ver as notícias da Fórmula 1. Chove ou não chove ?
Tenho boas previsões para hoje, embora sem dinheiro. Daqui a pouco a Ana liga e vou por a cara prá fora de casa. Vou comprar alguma coisa para comer no fim de semana. E dépois fazer o que se pode fazer sem dinheiro... Baixar músicas, ouví-las, namorar, cozinhar...
Bom fim de semana para todos...
Até mais...
posted by Marco at 12:50 PM
Friday, April 04, 2003
ALGUNS PENSAMENTOS INTERESSANTES
Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.
(Madre Teresa de Calcuta)
O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.
(Madre Teresa de Calcuta)
Todas as pessoas podem ser grandes porque todas podem servir. Não é preciso ter um diploma universitário para servir. Não é preciso fazer concordar o sujeito e o verbo para servir. Basta um coração cheio de graça. Uma alma gerada pelo amor.
(Martin Luther King)
A primeira e pior de todas as fraudes é enganar-se a si mesmo. Depois disto, todo o pecado é fácil.
(J. Bailey)
Uma mentira, ainda que a digam milhares de bocas, não deixa de ser uma mentira.
(Anatole France)
Quando tiveres cumprido o teu dever, resta-te ainda outro: mostrares-te satisfeito.
(Goethe)
Eis um teste para saberes se terminaste a tua missão na Terra: se estás vivo, não a terminaste.
(Richard Bach)
As pessoas fogem da solidão quando têm medo dos próprios pensamentos.
(E. Veríssimo)
Não existe um caminho para a paz; a paz é o caminho.
(Mahatma Gandhi)
Admiro as inteligências límpidas. Mas o que é o homem se lhe faltar substância?
(Saint-Exupéry)
posted by Marco at 8:52 PM
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